Assistência ao Parto


Parto Domiciliar

O Parto, sendo um processo natural, que ocorre na maioria das vezes sem qualquer complicação e sem necessidade de intervenção profissional, pode a princípio ocorrer no conforto do lar e na presença da família. Em alguns países, a prática do Parto Domiciliar é muito difundida. Na Holanda, por exemplo, grande parte dos nascimentos ocorre em casa.

Não estamos falando de nascimentos sem assistência, que acontecem em casa incidentalmente. Mas de uma seleção criteriosa de gestantes para as quais o parto domiciliar seja possível e seguro; de um planejamento que envolve equipe treinada, disponibilidade de equipamentos, estrutura e utensílios para uma assistência segura. Além disso, adotam-se protocolos precisos que definem quando é necessária a transferência para uma maternidade, que deve estar facilmente acessível.

No Brasil, a participação de médicos em partos domiciliares é "desaconselhada" pelo Conselho Federal de Medicina, o qual no entanto reconhece a autonomia da gestante em escolher o local do parto. A regulamentação permite ao médico prestar assistência à parturiente em casa, desde que esclareça a ela todos os riscos envolvidos e recomende a transferência ao hospital quando isso for necessário. A decisão final cabe sempre à gestante, ressalvados os casos de perigo iminente para mãe e/ou feto.

Nós acreditamos no Parto Domiciliar como uma opção viável nos casos em que isso seja possível e seguro.


Quando a Cesariana é Necessária

São inúmeras as condições usadas de forma inadequada para justificar uma cesariana desnecessária.

É importante frisar que a cesariana a pedido da gestante é permitida pela legislação atual, autorizada pelo Conselho Federal de Medicina, prevista pela ANS e coberta pelos planos de saúde, a partir de 39 semanas completas de gestação, desde que a gestante esteja orientada quanto aos riscos dessa decisão para sua saúde e para a saúde do seu bebê e que esta decisão seja por sua livre e espontânea vontade.

Não somos contra a cesariana a pedido. Mas combatemos veementemente a cesariana feita por conveniência médica ou justificada por motivos falsos.

A seguir explicaremos quais são os motivos mais importantes que realmente justificam a necessidade de uma cesariana. Em linhas gerais, abordaremos também o que pode ser feito antes de decidir que a cesárea é a melhor opção.

ANTES DO TRABALHO DE PARTO:

  • Placenta Prévia Centro Total: diagnosticada pela ultrassonografia durante o pré-natal, é quando a placenta está implantada sobre o colo uterino. Nessas condições, é impossível o parto normal, sendo que mesmo antes do início do trabalho de parto podem ocorrer hemorragias graves com potencial risco de vida para mãe e feto. O diagnóstico é firmado na segunda metade da gestação, ou seja, uma suspeita de placenta prévia feita antes de 20 semanas deve ser confirmada posteriormente. Atentar para o fato de que "placenta baixa" não é sinônimo de placenta prévia e normalmente não interfere com o andamento da gravidez, tampouco com a via de parto. Além disso, placenta prévia marginal não impede, por si só, o parto normal.
  • Feto Pélvico ou Transverso: pode ser diagnosticado pela palpação do útero ou pela ultrassonografia. O feto transverso ("atravessado"), mais raro, impede a progressão do trabalho de parto, além de estar sujeito a acontecimentos potencialmente fatais como prolapso de cordão umbilical (descrito abaixo). O feto pélvico ("sentado"), que pode ocorrer em cerca de uma de cada 20 gestações, permite um trabalho de parto sem maiores problemas, mas o risco de complicações é muito mais alto, sendo atualmente desaconselhado o parto normal de fetos pélvicos, especialmente para mulheres que estão na primeira gravidez. Uma alternativa à cesariana é a Versão Cefálica Externa, manobra que pode ser tentadaa partir de 36 semanas para "encaixar" um feto pélvico ou transverso. Ressaltamos que uma gestação com feto pélvico ou transverso pode transcorrer normalmente até o início do trabalho de parto, não sendo obrigatório o agendamento da cesariana com 39 semanas. Aguardar o início espontâneo do trabalho de parto pode ainda dar uma chance final para o bebê "encaixar".

DURANTE O TRABALHO DE PARTO:

  • Desproporção Céfalo-Pélvica (Falha de Progressão do Trabalho de Parto): em síntese, é quando a cabeça do bebê é maior que a passagem na bacia materna ou "encaixa" em uma posição desfavorável. A única forma de se determinar se existe desproporção céfalo-pélvica é através do trabalho de parto. Algumas condições durante o pré-natal podem sugerir a possibilidade de desproporção (peso fetal estimado maior que 4500g ou deformidades graves na estrutura óssea da bacia materna), mas mesmo nesses casos não se pode afirmar com certeza que o parto normal não seja possível. Já durante o trabalho de parto, uma parada de progressão no trabalho de parto pode ser indicativa de desproporção, mas para esse diagnóstico é fundamental o uso do Partograma. Sem o partograma, dizer que um trabalho de parto não está progredindo é mera especulação. Quando a progressão está abaixo do esperado, o uso de alguns recursos adicionais pode ser recomendado (sempre com anuência da gestante, após explicação sobre o que está acontecendo): uso de ocitocina sintética, o conhecido "soro"; rompimento artificial da bolsa amniótica; analgesia farmacológica. Vale lembrar que não existe um limite para a duração do trabalho de parto, tampouco uma progressão mínima da dilatação que justifiquem o uso das medidas acima sem o esclarecimento e o consentimento da gestante.
  • Descolamento de Placenta: se a placenta descola durante o trabalho de parto (ou antes dele, o que é mais raro), a cesariana deve ser feita de imediato, para preservar a vida do feto (que fica sem oxigenação) e da mãe (que pode ter hemorragia interna). O descolamento de placenta manifesta-se com contração intensa e contínua (ao contrário das contrações normais que são intermitentes), com ou sem hemorragia vaginal, além de batimento fetal que pode estar muito lento. Feito o diagnóstico de descolamento de placenta, a única coisa a se fazer é a cesariana imediata, por perigo iminente, a menos que a dilatação já esteja completa e o parto seja iminente.
  • Sofrimento Fetal Agudo: quando há diminuição na oxigenação do feto, que pode ocorrer por vários motivos: contrações excessivas, hipotensão da mãe, desidratação da mãe, problemas na placenta ou uma combinação de todos estes fatores. O principal sinal do sofrimento fetal agudo no trabalho de parto é a alteração na frequência cardíaca fetal, por isso a importância de ouvir os batimentos frequentemente. Detectada alteração na frequência cardíaca fetal, deve-se fazer uma monitorização eletrônica com registro gráfico para determinar se essa alteração é normal ou não. Caso seja anormal, sugestiva de sofrimento fetal, algumas medidas são adotadas para corrigir fatores que podem estar prejudicando a oxigenação fetal: deitar de lado, hidratação com soro puro na veia (sem ocitocina), interrupção da administração de ocitocina (caso tenha sido necessário antes), administração de oxigênio para a mãe, correção do excesso de contrações, se for o caso. Somente se houver falha dessas medidas, com persistência de freqüência cardíaca fetal anormal no registro eletrônico é que deve-se optar pela cesariana, preservando a saúde do feto. As medidas descritas podem reverter o sofrimento fetal na maioria dos casos.
  • Prolapso de Cordão Umbilical: complicação rara que ocorre quando parte do cordão umbilical sai pelo colo do útero na frente do feto, geralmente quando a bolsa se rompe antes que o feto tenha encaixado na bacia. Trata-se de uma emergência que necessita cesariana imediata, pois ocorre interrupção do fluxo sanguíneo para o feto.